imagem: @aartesara
“Cada
um é responsável pelas suas escolhas, mas e se a falta de fé deles for culpa
nossa?” Eles – Priscilla Alcântara.
Já fazia um tempo que eu queria escrever sobre essa música,
já fazia um tempo que eu refletia sobre ela. Mas hoje Deus me pegou de jeito
com vários “reflitão” sérios e arrasadores. Tudo começou quando eu me afastei
da religião, passei alguns meses distante e durante esse tempo eu tive um
contato um pouco maior com as pessoas que vivem fora da bolha. Nossa bolha
gospel. E me dei conta que quando estamos dentro dela, convivendo com pessoas
cristãs, trabalhando em ministérios com pessoas cristãs, indo à igreja todo
domingo, ouvindo apenas músicas cristãs, conversando apenas com pessoas
cristãs, nós nos colocamos dentro dessa bolha e me veio o seguinte pensamento:
os cristãos nem sabem que essa bolha existe. Mas aí nós temos um problema, e esse
texto não visa solucionar o problema, visa causar uma reflexão, pois para ser
honesta, eu ainda não tenho resposta para todas as problematizações que Deus
colocou em minha mente e meu coração.
Existe uma barreira entre os cristãos e não cristãos, e essa
barreira tem dimensões e pesos que os cristãos não imaginam, porque só
conseguem ver o seu lado. Nós estamos sim vivendo uma fase melhor no
cristianismo, um avivamento. Lindos ministérios e movimentos têm surgido, no
entanto, onde estão os não cristãos nesses movimentos? Esses movimentos atraem
os que já são de dentro, mas e os de fora? Até que ponto essa paixão da nova
geração é saudável? Quando ela pode se tornar uma alienação com relação aos de
fora? E será que isso era o que Jesus queria?
No evangelho de Marcos, capítulo 2, é relatado que Jesus
comia com os pecadores. Mas ele não apenas comia, o compartilhar do pão com
Jesus sempre foi diferente, ele compartilhava não apenas a comida, mas suas
ideias, ele também os ouvia, eles conversavam. E quando questionado por suas
companhias, inclusive seus discípulos – pois Mateus era cobrador de impostos,
visto como um traidor pelos judeus por trabalhar para Roma – o Mestre diz que
veio para os doentes, veio cuidar dos pecadores. E onde estamos nós nisso?
Trabalhamos em ministérios para alcançar esses doentes, propagamos que Deus os
ama incondicionalmente, e se eles aceitam e acreditam nisso, e depois? E se
eles não aceitam, os abandonamos ao invés de sentar à mesa com eles?
Depois de meses afastada da religião eu vejo que as coisas
não são preto e branco como eu pensava e como tantos cristãos que conheço acham
que são. Há outras cores, formas, vidas. Os movimentos crescentes estão cheios
de cristãos que antes eram frios e agora queimam por Jesus e glória a Deus por
isso! Mas é hora de expandir, de sair, de ir para fora. Mas a realidade, vista
e ouvida por mim é que as pessoas de fora não se sentem amadas e acolhidas por
nós! Vou tomar como exemplo os homossexuais, nós dizemos a eles que Deus os
ama, e que esse amor é incondicional, mas é tão difícil um homossexual conseguir
permanecer na igreja. Você já parou para conversar com um deles e perguntar o
porquê? “Esses movimentos me machucam e os cristãos me deixam frustrada porque
se eu não consigo ter a vida deles, me acho uma péssima cristã que não tem o
amor de Deus [...] As pessoas estão sempre muito imersas e isso me faz sentir
um lixo incapaz de ter fé. Pode ter gente como exemplo de cristão, eu sou um
exemplo de fracasso. [...] Representatividade tem sido um papo bem batido mas é
algo real, as pessoas buscam representatividade. Já parou pra pensar que o fato
de não ter lgbt na igreja é o que os afastam? Com não haverem lgbt lá e haver gente
historicamente intolerante é a certeza de ser desprezado ou excluído.
Exatamente o que se tem medo e se luta contra. É quase um tiro no pé.” Relato de uma amiga minha. "Tenho certeza de que eu não seria bem vinda nos ministérios" disse outra amiga "Sinto que a gente até pode ir aos cultos mas não porque somos bem vindos de verdade e sim para terem a oportunidade de salvarem nossa alma e cumprirem seu dever cristão. [...] Somos tratados como um problema, algo que precisa ser resolvido. Somos vistos como promíscuos e rebeldes, nossos sentimentos não são levados em consideração. E por mais que tenhamos um relacionamento com Deus, quando dizemos isso, não é levado à sério. Tudo isso me faz sentir que meu relacionamento com Deus está mais protegido fora do que dentro da igreja."
O que estamos fazendo? Talvez se
conseguíssemos de fato olhar para as pessoas como gente e não como “pecadores”,
“afastados”, “gays”, se conseguíssemos ou ao menos tentássemos olhar para as
pessoas como Jesus conseguia olhar, será que o amor dele então seria suficiente?
Porque querendo ou não, se as pessoas ouvem que Deus as ama e não encontram
esse amor na igreja, ele não será suficiente para fazê-las permanecer. Porque o
evangelho de Cristo era tão atraente para os mais doentes mas o evangelho
pregado hoje não os atrai? Porque eu ouço que isso é “mentira”, “hipocrisia”, “papo
furado”, e porque estamos desistindo dessas pessoas quando o Mestre nos ensinou a
nos cercar delas?
Quando olhamos para a Bíblia e
novamente citarei Marcos, nós vemos que os “santos”, os escribas e fariseus não
concordavam com o que Jesus fazia, ele curava no sábado, ele andava com
pecadores, ele perdoava os pecados. E os “santos” acusavam Jesus de diversas
coisas, mas o que Jesus mostra a eles é que eles queriam o conhecimento da Palavra
apenas para eles, não se preocupavam com a salvação dos que viviam fora de sua
bolha. Jesus saiu da bolha e os alcançou. Jesus veio restaurar o relacionamento
do homem com Deus, porque a prioridade das regras tinha substituído a
prioridade dos relacionamentos – tanto do homem com Deus, como dos cristãos
entre si. O mérito havia substituído o amor, as tradições tinham substituído a
intenção de Deus de restaurar pessoas! Será que isso está acontecendo novamente?
Nós não podemos pregar o evangelho e excluir as pessoas quando elas entram na
igreja, a comunhão entre os irmãos reflete a comunhão com Deus!
Porque a igreja passou a excluir se
o Senhor dela veio justamente para incluir, alcançar e salvar?
O que estamos fazendo de errado?
Como eu disse, não vim dar respostas, vim procurar a
reflexão. Espero que esse texto tenha despertado em você a inquietação que Deus
me despertou. Talvez esse seja o primeiro passo para mudar tudo.









