Talvez você não saiba, mas eu curso Psicologia. É um curso integral, que exige muita leitura, e mexe muito conosco emocionalmente. Todo curso tem suas exigências, dificuldades e demandas. Todo curso é difícil e exige muito de nós. Mas calma, eu não larguei a faculdade. O que quero dizer com "desisti" dela?
Eu sempre sonhei em fazer Psicologia e quando comecei o curso, me encantei com ele, e o amei. Mas sem perceber, a universidade se tornou minha vida, se tornou tudo o que eu fazia e queria. O mundo acadêmico era o meu mundo. Eu vivia para tirar notas boas, passar em todas as matérias e não repetir nenhuma, agradar pessoas ao meu redor, ser "perfeita" academicamente falando. Eu tinha me fundido com a universidade e não existia separada dela.
Comecei a ver algumas coisas ao meu redor saindo do lugar, pessoas vomitando antes de provas, crises de ansiedade, muito choro, desistências, e outras coisas bem mais pesadas. Comecei a perceber que todas essas coisas também estavam em mim e faziam meu corpo adoecer. Minha mente estava cansada, eu não dormia direito, não vivia. Meus colegas e eu refletíamos muito sobre o processo adoecedor na universidade, debatíamos sobre isso, e queríamos mudar. Mas quer saber? Eu não vi essa mudança chegar. Só vi as pessoas com quem eu me importava se cansando mais e mais e tamponando toda essa dor com coisas banais, que davam alívio por um tempo, mas depois a bagagem era colocada de novo em suas costas.
Pensei em desistir do curso várias vezes, largar tudo e dormir por um ano para recuperar o sono perdido (brincadeira, mas falando sério). Mas como eu falei antes, eu sempre quis psicologia. Então, eu tomei uma decisão difícil e dolorosa para mim. Talvez para você, essa decisão tenha sido algo simples e óbvio. Mas para mim, foi um processo grande, demorado e difícil. Eu decidi abandonar algumas matérias. Desde o começo do curso tenho pagado todas as matérias da grade, tudo certinho, para me formar no tempo certo, ter um bom currículo. Isso sempre foi importante para mim. Até que já não era mais.
Eu tinha duas opções na minha frente: a universidade, ou eu. Eu sempre escolhi a universidade, quando se tratava da minha felicidade, meu prazer, ou minhas notas, eu escolhia minhas notas. Meu tempo de descanso ou estudos, eu escolhia estudos. Minha saúde mental, ou frequentar todas as aulas, eu escolhia frequentar as aulas. Sempre me deixei em segundo plano, esqueci que era humana e não me dava o direito de fraquejar, muito menos falhar. Uma nota alta não era suficiente para mim, mesmo que eu não tivesse condições (físicas, psicológicas ou emocionais) para estudar muito a ponto de tirar um dez. Eu sempre me anulei e escolhi a universidade ao invés de eu mesma.
Abandonar algumas matérias, por mais simples que seja, foi uma escolha que fiz por mim mesma. Foi um passo que eu dei para uma nova etapa: uma etapa em que eu sou mais importante do que a universidade. Se você que está lendo esse texto vive num contexto parecido na universidade, eu quero te perguntar: vale à pena tudo o que você está passando? Nesse momento da sua vida, você está feliz com a forma que está vivendo? Está satisfeito? Você imaginou que viveria assim? É isso que você quer? É assim que você deseja viver?
Abandonar algumas matérias me permitiu enxergar que não valia a pena sofrer tanto em busca da perfeição acadêmica, porque a perfeição estava me matando, então, de que adianta ser perfeito e não estar vivo? Às vezes, caro leitor, segurar uma corda dói mais do que deixa-la ir. Às vezes desistir é a decisão certa. Às vezes, deixar ir é liberdade.
Eu desisti da universidade para lutar por mim. Foi a melhor escolha que fiz.
